
Pragmata — A Capcom Prova que Ainda Sabe Criar uma IP do Zero

Existe um momento, poucas horas depois do início de Pragmata, em que Hugh Williams — engenheiro espacial preso numa base lunar tomada por uma IA hostil — percebe que só vai sobreviver se aprender a confiar cegamente numa androide com corpo de criança. É a partir desse instante que o jogo revela sua verdadeira aposta: não é só mais um shooter em terceira pessoa ambientado no espaço, é uma dupla-protagonista onde tiro e hackeamento acontecem ao mesmo tempo, na mesma tela, sob a mesma pressão. E funciona.
O combate é a razão pela qual Pragmata vai ficar na memória. Enquanto Hugh dispara suas armas de energia e usa o jetpack para se posicionar, Diana precisa "abrir" cada robô inimigo através de um minigame de hackeamento em grid — guiar um cursor até o nó certo, desviando de obstáculos, enquanto os tiros continuam voando ao redor. Quando os dois sistemas se encaixam, a sensação lembra o melhor de Vanquish: uma dança cronometrada entre ataque e vulnerabilidade, coroada pelo prazer quase tátil de ver um robô "se abrir como uma lagosta" sob fogo cruzado. Nós especiais de hackeamento — confundir múltiplos inimigos, curar Hugh, atacar vários alvos ao mesmo tempo — dão camadas táticas reais a cada confronto, e a progressão entre créditos (para armas) e módulos (para habilidades de Diana) mantém a sensação de evolução acesa do início ao fim.
O problema é a dosagem. Depois de seis, sete horas vendo a mesma interrupção — parar o combate, resolver o quebra-cabeça de grid, voltar a atirar — o que era genial nas primeiras missões começa a soar repetitivo, especialmente em seções onde o jogo empilha hackeamentos obrigatórios sem variar o formato. É um caso clássico de boa ideia levada além do ponto de saturação, e mais de um jogador nas comunidades da Capcom reclamou exatamente disso: a mecânica que define o jogo é também a que mais cansa em maratonas longas.
A dinâmica entre Hugh e Diana é, sem dúvida, o que segura o jogador quando a trama de ficção científica — IA renegada, estação lunar isolada, mistério sobre os parceiros desaparecidos de Hugh — cai no previsível. Diana é curiosa, esperta e ingenuamente estranha da forma certa, com uma dublagem que carrega boa parte do peso emocional das cutscenes; Hugh, por sua vez, é um "everyman" hilário que evolui de desconfiado hostil para figura paterna. O arco funciona, mas as primeiras horas apressam essa virada de forma perceptível — Hugh passa de visivelmente incomodado com crianças a melhor amigo de Diana rápido demais para parecer conquistado, e é só depois da metade do jogo que os laços entre os dois realmente parecem ganhos, não impostos.
Visualmente, Pragmata cunha uma estética própria que merece o apelido que já circula entre jogadores: "NASA punk". Tecnologia vintage dos anos 60 se funde a um futurismo estéril e limpo, com cenários impressos em 3D pela Lunafilament que criam ambientes ao mesmo tempo familiares e alienígenas — florestas artificiais, oceanos sintéticos, corredores que parecem saídos de um catálogo da era espacial reimaginado. A trilha de Yasumasa Kitagawa, veterano da Capcom (Resident Evil, Monster Hunter World), acompanha esse tom com precisão: piano melancólico nas caminhadas silenciosas, sintetizadores tensos nos combates, e um uso inteligente do silêncio — em várias seções da superfície lunar, o único som é a respiração de Hugh dentro do traje EVA.
No quesito técnico, o PS5 base é o elo mais fraco da experiência: o modo Qualidade com ray tracing ligado oscila de forma instável entre 30 e 60fps, sair da estação de pesquisa provoca engasgos visíveis, cutscenes ficam presas em 30fps independentemente do modo, e o upscaling via FSR deixa ruído e cintilação perceptíveis nas texturas mais distantes. No PS5 Pro, esses problemas praticamente desaparecem — a taxa de quadros se mantém estável em 60fps mesmo com ray tracing ativo, ainda que os reflexos RT percam um pouco de qualidade por estarem atrelados à resolução nativa antes do upscale.
Como estreia de franquia, os números falam por si: mais de 2 milhões de cópias vendidas em 16 dias, com a Capcom colocando o jogo entre os mais vendidos dos EUA em abril de 2026 — uma marca rara para uma IP sem histórico prévio. E o motivo é claro jogando: Pragmata arrisca uma ideia mecânica genuinamente nova, entrega nela com competência, e usa uma dupla de protagonistas cativante para segurar tudo junto mesmo quando a trama ao redor não surpreende. Não é perfeito — o hackeamento cansa em doses grandes, a história central é o ponto mais fraco, e o PS5 base sofre para acompanhar a ambição visual — mas é, sem dúvida, um dos jogos mais originais que a Capcom lançou em anos.
+ PRÓS
- Sistema de combate híbrido — Hugh atira enquanto Diana hackeia em tempo real, num grid que expõe fraquezas dos robôs — é genuinamente inédito e vicia assim que o jogador domina o ritmo entre as duas ações simultâneas
- A relação entre Hugh e Diana é o coração do jogo: dublagem de Diana particularmente encantadora, com uma dinâmica que lembra o melhor do tom Pixar de maravilhamento infantil com peso emocional adulto
- Direção de arte 'NASA punk' — tecnologia vintage dos anos 60 fundida a um futurismo lunar estéril, com cenários gerados pela impressora 3D Lunafilament — cria um visual que não se parece com nenhum outro sci-fi recente
- Trilha de Yasumasa Kitagawa alterna piano melancólico e sintetizadores tensos com precisão cirúrgica, usando até o silêncio da lua como ferramenta de tensão
- Progressão dividida entre créditos (armas) e módulos (nós de hackeamento) dá sensação constante de evolução sem sobrecarregar o jogador de sistemas
- CONTRAS
- O minigame de hackeamento, por mais inovador que seja, quebra o fluxo de combate quando repetido à exaustão — depois da sexta ou sétima vez, a interrupção constante começa a cansar mais do que desafiar
- A trama central de ficção científica — IA hostil, estação lunar isolada, mistério dos parceiros desaparecidos de Hugh — é bastante previsível, e o jogo depende quase inteiramente do vínculo entre os protagonistas para sustentar o interesse
- As primeiras horas apressam a virada emocional de Hugh, que passa de visivelmente incomodado com crianças a companheiro protetor de Diana rápido demais para parecer conquistado
- No PS5 base, o modo Qualidade com ray tracing oscila entre 30 e 60fps, cutscenes travam em 30fps e o upscaling via FSR deixa ruído e cintilação visíveis — problemas que o PS5 Pro resolve quase por completo
- Plataforma e mobilidade do jetpack são desajeitadas nas primeiras horas, antes dos upgrades que destravam a real fluidez de movimento
Conclusão Detalhada
"Pragmata é a prova de que a Capcom consegue lançar uma IP inteiramente nova e ainda assim entregar um dos melhores jogos do ano: o casamento entre tiro em terceira pessoa e hackeamento em tempo real é uma das ideias mais originais da geração, e o vínculo entre Hugh e Diana carrega a narrativa mesmo quando a trama de ficção científica tropeça no previsível. Falta polimento técnico no PS5 base e um pouco mais de confiança para deixar o combate respirar sem tanta interrupção — mas como estreia de franquia, é quase impecável."
Comentários da Comunidade
Especificações Técnicas
- Desenvolvedora
- Capcom
- Publicadora
- Capcom
- Lançamento
- 17/04/2026
- Plataformas
- PS5, Xbox Series X|S, PC
- Faixa Etária
- 14+
- Preço Sugerido
- R$ 349,90
- Tempo de Campanha
- —
- Idiomas Suportados
- Inglês, Francês, Italiano, Alemão, Espanhol, Árabe, Espanhol (América Latina), Português (BR), Polonês, Russo, Chinês Simplificado, Chinês Tradicional, Japonês, Coreano
- Multijogador
- Apenas Offline





